terça-feira, 25 de junho de 2013

Entre a bunda e o cérebro

Primeiro dia de academia. A treinadora, Aline, está perguntando: "-...E quais são seus objetivos?" Começo com os mais fáceis de elocubrar: "-Preciso fortalecer o joelho, a coluna..." Ela acena com a cabeça. "- Emagrecer, aumentar a massa muscular, e..." Ela, olhando bem no meu olho: -"E?..."
Eu fico quieta. "-Ah... acho que é isso." "-Mais alguma coisa? Mais algum objetivo?" Eu arrumo culhões de algum lugar: "-Ah, eu queria... Aumentar a minha bunda, hehe." Ela não corresponde o risinho nervoso, pelo contrário, segue me olhando bem séria e balançando a cabeça: "-Ahãm..." Eu continuo desajeitadamente: "-É que eu nunca tive muita bunda mesmo... E ela completa: "-E aí você começa a emagrecer e diminui ainda mais né?" Eu: "-Isso!" Ela fecha o assunto e anota na ficha: "-Legal, muito bom."

A naturalidade com que ela tratou meu pedido só expôs o quanto o meu constrangimento era irracional, especialmente naquela ocasião. Pela lógica: Academia é esse lugar que a gente vai pra fortalecer e melhorar o quê? O corpo, caramba. E a bunda faz parte do quê? Do corpo, caramba! Mas eu, eu, eeeeu? podia querer uma bunda mais "bonita"? (Pros MEUS padrões né gente, cada um com os seus).

Você já deve ter ouvido essa história: Gordinha nerd, que odiava as aulas de educação física e sempre teve uma relação tumultuada com o espelho. Eu era a garota dos livros, do pensamento, do conceito, que amava as ideias, não a quadra de esportes. Esse era o meu mundo. E é claro que sempre olhei com uma certa superioridade misturada com despeito pras minas consideradas gostosas pela maioria. As moças saradas que tem no corpo seu cartão de visitas e gostam de mostrá-lo com orgulho sempre que podem.

E, além de nerd, eu sempre fui o que as pessoas chamam de "crente" (não gosto, prefiro "cristã"). Cresci numa família de pastores batistas, me converti por decisão própria e fiz da minha vida espiritual uma prioridade por décadas, negligenciando outras partes também importantes da vida. Liderei grupos de adolescentes e jovens, fui até missionária voluntária durante um ano depois do Ensino Médio e dei aulas numa escola rural no interior do Rio Grande do Sul. Aí aos 28 anos mudei meu rumo completamente. Saí de um tipo de bolha ou gueto cultural evangélico em que vivia e, por uma série de motivos, rompi com a igreja institucionalizada*. Hoje tenho minha fé, mais forte que nunca, de um jeito muito mais livre, leve e orgânico, mas a educação tradicional cristã deixou suas marcas. Cresci com esse pensamento equivocado, ainda que inconsciente por muito tempo, de que tudo que diz respeito ao corpo, ao material, ao sensual, era uma coisa menor, menos importante. 

Aí você junta tudo isso: o intelectual e o espiritual super valorizados (ainda que pareçam contraditórios, no meu caso sempre caminharam juntos) e o corpo, coitado do bichinho, de escanteio. É claro que isso foi mudando com o tempo. ~Cresci e virei mulher, tive que encarar com muita fé.~ Emagreci várias vezes e a verdade é que nunca foi só pela saúde, queria ficar bonita pohan, me sentir atraente, mas - e  esse é um grande mas - nunca assumi isso em alto e bom som, com convição. 

Até agora. Que a vida me trouxe para esse meu momento. Percebi o quanto o sobrepeso estava sufocando quem eu realmente era e como estava me adoecendo fisica e emocionalmente. Decidi mudar minha vida e começar um processo de emagrecimento de gente grande, de dentro pra fora. Eliminando um quilo de cada vez, com planejamento e consciência, nada de afobação. E meu corpo, que antes só conseguia minha atenção  dando piripaque, produzindo dor, começou a se tornar um verdadeiro protagonista na minha existência. Tenho cuidado dele como nunca antes, com afeto. Nesse processo enxerguei em mim uma sensualidade poderosa que precisa respirar, existir de fato, acontecer. E estou amando isso. 

Afinal de contas parece que não sou tão diferente das gostosas que tantas vezes olhei com lasers feministas ou pseudo-feministas. A verdade é que não tenho nem de longe todas as respostas que queria ter nesse momento sobre 'quem eu sou', mas... "perder-se também é caminho" não é?

Enquanto isso, minha bunda e meu cérebro finalmente entenderam que estão do mesmo lado. 
...Tudo sou eu. 


Vou ali malhar a poupança, bjs.


* Hoje, faço parte de um coletivo, chamado Estilingue, que reúne artistas, comunicadores e outros profissionais cristãos (ou não cristãos, ateus participam, todo mundo é bem vindo), mas tenho muitos amigos admiráveis que continuam participando das igrejas institucionalizadas - e os respeito muito. Cada um na sua e o respeito sobretudo.